terça-feira, 14 de junho de 2011

Depois do pôr do sol.

Depois do pôr do sol.

Tocou com uma das mãos a parede branca ao seu lado. Sentiu a umidade do ar tentando penetrar pelas paredes do quarto. O sol havia se posto há muitas horas atrás. O sol também havia se posto dentro dela.

A noite se estendia do lado de fora da casa. Densa e fria. O ar pesado a sufocaria se ela tentasse penetrá-la. Neblina. Tinha certeza que, lá fora, não poderia enxergar dois palmos a sua frente. Refletiu sobre as possíveis conseqüências dos seus atos. “O que tenho a ganhar ou perder?” Perder. Não se tratava de perder. Era apenas a verdade que buscava. Por mais que essa pudesse feri-la. Não temia a dor. Não temia os sentimentos que pudessem nascer dela. Assim como não temia ao outro.

Tocou seu próprio rosto com as mãos frias. O sol havia se posto há muitas... Muitas horas atrás. E ela sabia que ele havia se posto dentro dela também.

“Não há mais espaço para dúvidas em mim.” Franqueza. Exigiria apenas a franqueza do outro, posto que tudo o mais lhe seria negado. Posto que tudo o mais se transformaria em expectativa. Expectativas. “Não há mais espaço para expectativas...”

Colocou seu pesado casaco negro que lhe chegava até os tornozelos. Olhou-se no espelho uma vez. Viu sua pele pálida contrastando com seus lábios vermelhos e quentes de certeza. Sua figura branca demais se destacava por meio dos seus olhos. Eram, agora, negros olhos de mulher. Caminhou firmemente até a porta da frente e mergulhou na noite fria.

Caminhou em seu passo certo por entre as ruas. A plenitude. “Existiria mesmo a plenitude? Nessa vida... Antes da eternidade?” Tudo o que havia feito nos últimos meses fora em direção da plenitude. Buscava incansavelmente por si mesma. Por sua felicidade plena. Por sua realidade própria. Em cada gesto seu, havia a certeza. Em cada palavra, a busca. Havia amor. Apenas amor. Era por amor que vivia. Pois amava, que educava. Pois amava, que dedicava suas horas àqueles que não conheciam o amor. Pois amava a si mesma, que se permitia não amar como Homem àquele que seus lábios haviam beijado. Partiria Dele a reciprocidade. Apenas Dele. Cada um é sua própria chave para o amor. Como mulher ela partiria, cabendo a ele apenas o que lhe era devido. Caberia a ele apenas a Humana. Com seu amor humano. Mas a Mulher partiria assim que ele lhe desse o sinal. Era o sinal que ela buscava naquela noite fria.

Seus passos a levavam por caminhos, há muito, conhecidos seus. O calor saía do seu corpo em forma de sopros esbranquiçados. Respirava duramente o ar pesado que a envolvia. A noite era cinzenta e impenetrável. Mas ela caminhava sem receio. Sem medo da noite. Sem medo de si mesma. Não havia mais o medo. Apenas ela. Submergindo-se. Em forma de esferas negras que transformavam seus olhos em abismos. A mesma forma que teria a noite escura.

Ela precisava de um ponto final. Ou da certeza da continuidade. Tudo em sua vida exigia limites. Inícios e fins. Tudo nela exigia a clareza. Exigia a coragem. “A vida toda covarde... E agora a coragem”. Pois que era Mulher, precisava saber se era desejada como Mulher. Visto que, era como mulher, que necessitava ser desejada.

Desejava o pôr do sol todos os dias, pois desejava ver claramente o início e o fim. Necessitava de períodos bem delineados em sua vida. Vivia de constantes renovações. Odiava o meio termo. “As incertezas alheias”. Repugnavam-lhe as meias verdades.

Por isso caminhava. Apenas por si própria que enfrentava, de nariz vermelho e mãos geladas, aquela noite de sábado. “Sábado. O último dia da semana”. Amanhã seria domino. Domingo. “O início de uma semana que se inicia. Sete dias.”

Os cascalhos de asfalto se desprendiam sob a sola das suas botas negras. Negras como o asfalto. Como aquela noite deveria ser, mas era cinzenta e confusa. Turva e nebulosa.

Os gatos não caminhavam pelas calçadas, como de costume. Estavam enrolados em si mesmos nos cantos dos muros de cimento. “Enrolados em si mesmos.” Ela não se permitiria jamais enrolar-se novamente. Deixar-se levar. Era ou não era. Simples assim. Como toda mulher deveria ser. “Mulher.” A única certeza que lhe vinha naquele momento era de que ela era mulher. Adulta o suficiente para a verdade. Faria sempre as perguntas, posto que não temia às resposta.

Procurou por outros passos a sua volta. Certificou-se, por um momento, de que estava sozinha. Era apenas ela. Ela e a noite. Porque o Sol... Esse, havia se posto há muito tempo. E dentro dela também. Há muitos dias, ele havia se posto para ela. Apagando, bruscamente, as luzes (que agora sabia) tão passageiras da expectativa. Das ilusões. Da ingenuidade.

E desde então ela assumira o abismo negro que carregava com sigo. Por isso, não se permitia às incertezas do cotidiano. Já lhe bastavam as próprias. O Seu Sol havia partido. O seu sol havia se posto. Apenas por ela. Para que ela existisse. Para que ela pudesse submergir de suas próprias águas escuras.

Aproximou-se do portão de ferro impenetrável. Gritou o nome masculino que buscava. Gritou mais uma vez. Precisou da terceira vez para que ouvisse o som distante da porta da frente se abrindo. O coração saltou-lhe no peito. “Agora não tem mais volta. Agora vou ter que pular...”

Ele apareceu assim que parte do portão se abriu para ela. Mas ela percebeu que apenas o portão se abria... Ela teve essa certeza. No momento em que pôs seus olhos sobre os olhos dele.

Ainda assim, era necessária a pergunta. E não temeria, de forma alguma, a resposta que, agora, já esperava dele. Respirou com força. “Mais uma vez...” Articulou perfeitamente todas as suas palavras.

Após o educado cumprimento, apesar de simples, a pergunta pareceria a ele um tanto quanto... “Estranha”. Visto que, a Grande Maioria simplesmente não pergunta. Mas ela era Ela. Não a maioria. Por isso perguntou claramente. E apenas uma vez.

Obteve a resposta. Clara, apesar de indireta. “Muito educado da parte dele. Muito educado...” Mas não havia naquele Homem nada mais do que o desejo de estar sozinho. Ela não cabia nos seus planos de vida sem riscos. De uma vida sem o risco Do Outro.

Entendeu os limites do Homem a sua frente. Admirou-lhe, sinceramente, a franqueza.

Com olhos complacentes, ela compreendeu a necessidade que ele tinha de não buscar Nela. Com um sorriso, meio sem jeito, nos lábios vermelhos, agora de frio, ela lhe desejou uma boa noite. Muito educadamente. E muito educadamente, obteve resposta. Girou em torno de si mesma, dando lhe as costas.

“Voltar para a casa... Voltar para casa.” Por meio da noite que a envolveria em pesado manto cinzento e frio. Voltaria para casa com sua própria noite dominante.

O sol havia partido nela há muito tempo. Há vários dias atrás. Por isso não havia em si qualquer sinal de Dor. Porque não carregava expectativas no homem. Pois que havia se posto, ela não mais esperava no outro. Desde então esperava apenas de si mesma.

Era madrugada de sábado. Amanhã seria domingo. “Domingo. O primeiro dia da semana.” Dia de estar ao lado daqueles que se ama. Amanhã estaria com amigos. Ele disse à ela que também estaria. Mas agora não haveria mais dúvidas. E ela seria ainda mais plena. A plenitude, naquele momento, era Saber. E ela soube. Havia tido a resposta proferida claramente dos lábios dele. Dos lábios, que há poucos dias, havia beijado.

Enquanto destrancava a porta da frente da própria casa, obteve parte do esclarecimento que buscava dentro dela.

“O outro questionamento...” Aquele que cabia apenas a si mesma responder. Em quanto despia o casaco, veio lhe a clareza. “Sim! A plenitude também residia ali! Naquele momento de verdade. Naquele momento de coragem...” Por que naquela noite, mais do que nunca, havia simplesmente Sido. Sem se importar com os “apesares”. Clarice tinha razão: “Apesar de, é preciso viver.”

“É preciso viver! Não se pode temer! Não se deve recuar...” Sorriu sem vontade. Tirou as botas e escorregou por debaixo da coberta ainda fria.

Esperaria os cinco minutos que essa necessitava para tirar-lhe do corpo o calor que transferiria de volta à ela. Ela buscava a plenitude... Ela buscaria por mais que temesse serem os cinco minutos dolorosos a verdadeira plenitude. Talvez o posterior sono profundo não fosse a plenitude. Talvez a jornada Valesse Mesmo... Mais que o próprio destino.

Fechou seus olhos e permitiu que a noite a invadisse plenamente. Permitiu que o Sol se posse por completo em sua alma. Ela sabia que seu retorno talvez fosse impossível... Ou, improvável... Ou, pelo menos, para que ele voltasse... Muito lhe seria exigido. A descrença, agora, era mais fácil que o contrário. A imunidade lhe parecia adequada naquele momento. Aquela seria apenas o início de uma longa noite para ela.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Sendo Humana.

Tornou a movimentar-se em um esforço desesperado dos seus pulmões. Sentiu um gosto amargo na boca, retomando, assim, a consciência do próprio corpo. A cabeça lhe parecia lenta e pesada. Sentiu os membros doloridos junto às articulações. Enquanto um vazio enorme tomava conta do seu estômago.

Repentinamente, abriu os olhos. O susto inicial.

Piscou algumas vezes. Desembaçando a vista. Conhecia o quarto a sua volta. Era o mesmo desde que... “Quanto tempo?! Quanto tempo passou?!”

Apreensivamente examinou o ambiente que a cercava. O teto branco. As paredes azuis. A porta de madeira gasta e esburacada. Semicerrada, como de costume. Janelas fechadas. As densas cortinas brancas. “É dia ou noite lá fora?”

Voltou sua atenção para seu próprio corpo, que se escondia sob a colcha vermelho-vinho.

A imagem que obteve de si mesma ao observar-se a assombrou. Ficou imóvel por longos minutos. Aquele não era o mesmo corpo que havia carregado durante tantos anos. “Carreguei”. Era essa a relação que tinha estabelecido com seu próprio corpo durante sua vida até então.

Agora, a imagem que percebia de si mesma se alterava. Era menor o seu corpo. E ao mesmo tempo, sentia que algo havia crescido absurdamente dentro dela. Seus olhos arregalaram-se diante das disparidades. Algo dentro de si mesma, em algum momento, havia sido germinado. Dolorosamente. E desde então, vinha tomando forças e se enraizando profundamente dentro dela.

A pele já não era mais a mesma. Assustou-se com a clareira que parecia irradiar do tecido branco que cobria seu corpo. Antes frio e pálido. Agora parecia irradiar por toda a sua pele um reflexo involuntário do seu organismo. Viva. Era viva a sua pele. Repentinamente, sentiu que todos os pelos do seu corpo estavam eriçados. Como se a vida guardada dentro dela fosse explodir a qualquer momento.

Ao mesmo tempo, percebeu que seu corpo guardava, silenciosamente, alguns pequenos hematomas. Tateou com as pontas dos dedos, e com muito cuidado, cada um deles. Eram feridas internas. O Passado pulsando delicadamente sob o presente. Seus olhos brilharam cortantes.

Agora havia, em seus olhos, uma navalha fina, que sentia transpassar sua retina. Crescimento. A dor gera crescimento e força. “E quanto mais fraca... Mais forte eu fico.”. Ironia. Sarcasmo. Seus olhos eram ironia pura. Mais velhos e profundos.

Percebeu a longa jornada que havia percorrido. Longas estradas. Sobre pedras e espinhos. Rostos conhecidos habitavam no que havia de mais sutil e profundo dentro dela. Alguns deles causavam nela conforto, outros, dor, enquanto outros... “Muita saudade.”

Momentos rápidos começaram a passar pela sua cabeça. Entrecortados. De acordo com a dor ou felicidade que haviam provocado nela. Agora, podia assistir com alguma distância a menina que convulsionava pelo contato com o mundo ao seu redor.

Viu-se deitada sobre chãos frios tentando conter espasmos de dor que lhe acometiam. Viu-se encarando, mudamente, o mesmo espelho, por diversas vezes. Como se buscasse algo dentro dos seus próprios olhos, como se questionasse a si mesma, exigindo respostas. Exigindo-se. “Seja. Está na hora de ser!”

Viu-se em alta velocidade sobre ruas de asfalto. Perfurando ares frios. Enquanto se entregava às dezenas de pores-do-sol. Ao mesmo tempo em que sentia seu coração sendo rasgado pouco a pouco.

O pôr-do-sol era para ela como o Fim e o Início. Convivendo pacificamente no mesmo céu. Para que algo novo nasça, é preciso, às vezes, que se destruam antigos hábitos. Velhas ilusões. Sentimentos desgastados. Barreiras. Inseguranças. Medos.

Era preciso que, antes de mais nada, destruísse tudo aquilo. “Aquilo”. Aquilo que a tornava “inacessível”. Para que, sobre terreno limpo e fértil, fossem semeadas novas percepções. Cuidadosamente. Sobre a terra úmida. “Em carne viva.”

Estava em carne viva. E percebeu que, dali em diante, talvez esse fosse seu estado permanente. Viveria em carne viva. Sensível. Intensa. Essa era Ela. Aceitava-se, finalmente. A verdadeira. Sem medo de Ser o que era.

Para que chegasse até ali precisou de mais tempo e paciência consigo mesma. Precisou Ser. E foi sendo, aos poucos. Se conhecendo. Permitindo-se. Submergindo dentro de si mesma.

Até que chegou ao ponto de perceber que aquela seria uma busca constante. A busca de si mesma. Era uma viagem perigosa. Sem fim. Da qual, iniciada, não teria mais chances de fazer o caminho de volta. As lâmpadas foscas e mal penduradas apagavam-se atrás dela, pelos labirintos que vinha percorrendo ao longo dos últimos... Dias? Semanas? Meses? Quanto tempo havia durado? Por quanto tempo havia... “Dormido?”

Sentiu, repentinamente, seus pés. Estavam doloridos. Havia pisado sobre cacos de porcelana quebrada. As bonecas quebradas dentro dela. As meninas que insistiu por tempo demais guardar em si mesma. Não as encontrava mais. O escuro daquele labirinto. “Abismo profundo.” As bonecas partidas. Seus cacos lhe arrancaram sangue, que sentiu escorrer quente pela planta dos pés enquanto percorria seu próprio labirinto.

Tinha levado consigo uma pequena vela acesa. Que sabia ser o suficiente para manter-se acordada no escuro. O suficiente para não se perder do pouco que sabia. Sabia sua vida. Sabia sua família. Seus amigos. Seus amores. Sabia, agora, amar. Verdadeiramente. Através de si mesma. ELA era a única chave para o amor. E, agora, tinha consciência disso.

Sentiu seu “corpo sutil” (Diria Lygia) transbordar por todo o seu corpo físico. Sentiu que a cada dia sua alma lhe escorregaria mais por entre seus próprios dedos. E sorriu com a nova descoberta. Pois se não há a procura... No momento em que deixamos de buscar... Estamos mortos dentro de nós mesmos. Não existe vida gritando. Se contorcendo. Pulsando. Crescendo. Se transmutando. Fazendo de nós seres humanos. Imprevisíveis.

É necessária a exasperação do mundo interno com o mundo que nos cerca. O encantamento. Pequenos assombros. Pequenas descobertas. Grandes encontros.

Não reconhecemos a paz quando nunca olhamos nos olhos da angústia. Não diferenciamos o mal daquilo que realmente nos faz bem, quando não passamos pela experiência de ambos. Não procuramos pelo amor, a menos se tivermos passado pela dor de não termos sido amados. Ou de não termos aprendido como amar aquela pessoa. Não reconhecemos o que é infinito: o Cairós, sem termos tido a dura pena do Crohnos: o mutável, o passageiro. Do que não nos mata a sede. Do que é fugaz.

A então Mulher voltou a abrir seus olhos, mas dessa vez o fez lentamente. Sem sustos. Sem o receio. Mas sentindo cada um dos seus cílios se desprendendo lentamente do seu rosto. Acompanhou o movimento pesado de suas pálpebras. Era como se estivesse adormecida durante anos. E agora nascesse de novo.

Inalou prazerosamente o ar novo que a rodeava. Afastou com um gesto suave a colcha do seu corpo. Levantou-se da cama, alongando cada um dos meus membros. Em um movimento felino. Sentia-se felina. Suave. E ao mesmo tempo, consciente de cada um dos seus movimentos. Sutis e delicados. Marcantes e passageiros. Passageira. Como todo ser humano em constante processo de crescimento deve ser. Como todo ser humano vivo deve ser. Estava Sendo Humana.

Caminhou com os pés descalços até a pesada cortina branca e a abriu. A luz do dia tomou conta do seu corpo. Ela abriu uma pequena fresta entre seus lábios para engolir os finos raios de sol que lhes eram oferecidos pelo dia. Com outro gesto, afastou o vidro da janela, permitindo que o vento gelado lhe tocasse o rosto e bagunçasse seus cabelos.

Uma música tocava em algum lugar. Não pôde reconhecer de onde vinha, mas uma vontade imensa de dançar tomou conta do seu corpo. Dançou levemente e de olhos fechados até cair sobre o tapete no chão. Encontrou seus olhos no espelho. Encontrou sua face. “Sou fluida. Sou casca. Quero romper a casca. Quero ser apenas o fluido de mim. Quero Debussy. Quero velas aromáticas. Quero todos os pores-do-sol.”

Soltou um riso frouxo. Que ecoou por dentro dela. Ela vivia dentro dela. E agora também para o mundo. Corpo. Alma. Mundo. Pôde sentir uma invisível linha de conexão entre os três. Um equilíbrio que se encontrava por meio de um verdadeiro desequilíbrio total. Precisaria apenas Ser. E mais nada. Agora ela era, finalmente, humana.

terça-feira, 22 de março de 2011

A Fonte.

“Mesmo que nunca mais fosse sentir a grave e suave força de existir e amar, como agora, daí em diante ela já sabia pelo que esperar, esperar a vida inteira se necessário, e se necessário jamais ter de novo o que esperava.”
(Clarice Lispector)


Todos buscam insaciavelmente pela fonte. Fria. Pura. Transparente. No entanto, a água escorre inesgotável sobre os pés. Jorra. Incessante. A mesma água. E a sede a queimar-lhe a garganta. A sede. A água da vida a lhe acariciar suavemente os dedos e o peito dos seus pés. Enquanto fecha seus olhos e finge não ver.

Os que passam pela fonte sentem medo. Medo de amar. O desconhecido. Água nunca antes tocada. Assusta. O Perigo. “E se nela eu me afogar? E se eu não mais voltar?”. Mergulho profundo. Intensidade. Poucos podem. Poucos querem. Poucos sabem. Alcançar as estrelas. Na presença, sentir faltar o chão sob os pés e o tempo ecoar pela eternidade. E na falta, paredes e teto que se fecham. Sufocam. O desespero. E no retorno, a paz. A paz.

Os que têm medo vivem em busca do prazer provocado. Do prazer imediato. O sexo é assunto popular. São todos mortos de medo. Estátuas de gelo, porque a chama não dura... Não dura.

Tomam da bica enferrujada. Do líquido seco que não sacia a sede. Colocam a venda sobre os olhos. Que é pra não ter dor. Que é pra não ter a ousadia de ir buscá-la. A fonte. De ir bebê-la. “Tão arriscado. Tanta a água... Tão bela a fonte, que poderia nos afogar... Nos engolir.”

A busca insaciável. A sede não saciada. A fonte está errada. Sob seus olhos, no entanto não vê. A água escorre brilhante sobre seus pés. Amor. Por toda uma vida a água poderia lhe abastecer. O rosto seria lavado com sua pureza. O sol refletindo vida na face molhada.

A terra úmida sob seus pés. Seu coração encharcado de amor. O sorriso franco e natural, deixando resplandecer o brilho dos olhos. Mas ah... É tão intenso vivê-lo! O amor é para todos. No entanto, poucos são para o amor.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Encontro.

“Ele faria da queda um passo de dança,
do medo uma escada, do sono uma ponte,
da procura um encontro.”
(Fernando Sabino)



Eu não me encontrava nos espelhos. Não me via nas fotos. Apenas o espectro de mim mesma. Fantasmas. Frestas. Arestas. Lacunas que não me sentia capaz de preencher. Procurei por mim mesmas entre os escombros da memória. Por entre as flores que havia, há tempos, semeado. Busquei encontrar o perdido nas pedras e espinhos que deixei minhas próprias mãos espalharem pelo chão da minha travessia. Pedras. Eu esqueci a mim mesma em algum dos vazios entre elas.

Precisei de diversas equidises pra chegar até aqui. Precisei morrer dentro de mim mesma. Destruir para construir. Precisei renascer pra me encontrar. Precisei de tapas no rosto. Vezes, eu mesma os teria dado. Fitar o espelho. O avesso. A imagem refletida ao contrário. Apenas imagem. O palpável. Mas mergulhar nos olhos é tão diferente. Eu estou dentro de mim. Eu sou. Eu busco. Não me canso de buscar.

Somente olharia para o outro, depois de ver a mim mesma. Refletida nos meus próprios olhos. Posso saber que O ENCONTREI, quando souber O QUE procuro. Parece simples. Não é. Ninguém disse que seria.

Mas alguma parte dentro de mim sempre soube que eu seria capaz “... faria da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.” (Fernando Sabino).

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Incertezas.

“Dei quase cinco passos e parei,
não podia andar pra trás.
Mas confesso não cabia enxergar tantos sinais.
Alô! Eu sei... Se chega até aqui,
tão iminente não da mais pra desistir.”
(Quinto andar- Tiê)

Quando olho para o lado e não o vejo. Não sabendo ainda muito bem o que procurar. Amor, eu sei que esteve aqui, nos meus sonhos brincando com os meus medos. Amor, eu sei que esteve aqui...

Buscando entre passos chegar até o fim. O fim, sempre o início. O medo invade as lacunas do meu quarto. As paredes se transmutam até o fim. O fim. O vazio toma conta dos espelhos. O medo do futuro. Futuro incerto. Cada dia passado se transformando em borrões de memória nas paredes do meu corpo. Balões. Pequenos pontos coloridos espalhados em meu céu.

Quando olho para o lado e não o vejo. Não sabendo ainda muito bem o que procurar. Amor, eu sei que esteve aqui, nos meus sonhos brincando com os meus sentimentos. Amor, eu sei que esteve aqui...

A bicicleta a rodar por entre ruas. Pequenas ruas curvas. Cenário. Mundo real e tão imaginário. Pequeno mundo construído que se dissolve. Quatro anos... E se dissolve. Desmancha como as nuvens nesse céu tão azul. Confesso ver mil cores em um único por do sol. Confesso... No decorrer dos segundos. E o tempo a gritar. Gemendo friamente em algum canto nas paredes lodosas do passado. A massa cansada se entrega ao tapete no final do dia. Meu corpo espalhado no canto mais estreito desse quarto. Olhos pesados. Não vejo seu rosto na televisão. Não encontro seu sorriso no porta-retrato. Não ouço sua voz ao pé do meu ouvido. Nem mesmo... Se ao menos você sussurrasse... Mas, Amor, eu sei que esteve aqui...

Quando olho para o lado e não o vejo. Não sabendo ainda muito bem o que procurar. Amor, eu sei que esteve aqui, nos meus sonhos brincando com os meus medos. Amor, eu sei que esteve aqui...

Risadas e conversas despropositadas. A falta que fazem ainda não se impôs. Tão vago e próximo. O inevitável se esconde por entre as horas breves. Mas sei. Posso sentir. O peito se apertar ao se partir. Mas chegamos juntos até aqui... Eu sei. Chegamos até aqui.

Quando olho para o lado e não o vejo. Não sabendo ainda muito bem o que procurar. Amor, eu sei que esteve aqui, nos meus sonhos brincando com os meus sentimentos. Amor, eu sei que esteve aqui...

Quando me dei conta era tarde demais. O inevitável se aproveitando do meu descaso. Tarde demais para fingir não notar. Tão óbvio e fora do comum. O destino sorrindo por trás de um par de olhos. Mas confesso não cabia enxergar tantos sinais...

Mas eu ainda olho para o lado e não o vejo. Talvez. Se soubesse o que procura. Mas, Amor, eu sei que esteve aqui... Quando não durmo, eu sei. Amor, eu sei... Mas, Amor, por que eu te chamo assim? Se com certeza você nem pensa em mim. Amor, por que eu te chamo assim? Se com certeza você nem lembra em mim.

Falta demais sei que farão os rostos deles. Atentos. Olhos ansiosos voltados para mim. Em um mundo de poemas e sentidos. O gosto das palavras despontando como sal dos meus olhos. A falta que farão nas noites claras. A falta que farão nos sábados de chuva. A falta, eu sei. Mas se chega até aqui, tão iminente não dá mais pra desistir.

Quando olho para o lado e não o vejo. Não sabendo aimda muito bem o que procurar. Amor, eu sei que esteve aqui, nos meus sonhos brincando com os meus medos. Amor, eu sei que esteve aqui...

O fim sempre um recomeço. Tenho medo do recomeço, Amor. Estarei de mãos vazias. O que antes era tudo. Significa amanhã tão pouco. Amor, eu sei... Se chega até aqui, tão iminente não dá mais pra desistir... Mas... Amor, por que te chamo assim? Se com certeza você nem lembra de mim. Amor, por que te chamo assim...?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Medo

“Refugiamo-nos no amor,
Este célebre sentimento,
E o amor faltou: chovia,
Ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
Nos dissimula e nos berça.”
(Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo)


Fora o som descompassado do seu próprio coração, o som abafado dos passos na neblina fria era tudo o que podia ouvir. O gosto úmido-frio da neblina em seus lábios era tudo o que podia sentir. E se gritasse. E se ecoasse por entre as ruas toda a dor que já sentira um dia. E viria sentir nos próximos.
Em cada rosto. Cada par de olhos. Cada casaco ou capa de chuva. Tudo aquilo que não procurava. Assim estava a salvo. A salvo de si mesma. A salvo dos seus medos. Seria tão impossível quanto encontrar uma agulha no palheiro. Tão obviamente impossível. Que não temia encarar face por face.
Mas se culpava quando seus instintos faziam com que desviasse os olhos ao deparar-se com o amor. O amor. Um casal de mãos dadas. Dedos entrelaçados. Vidas que haviam se encontrado. Só um casal. Mas não se obrigava a olhar. Seria como encarar seus fantasmas.
Por falar em fantasmas, eles eram tantos naqueles túneis. Fluxo de gente saindo pelas inúmeras portas dos metrôs. Cabeças. Pés. Pernas. Corpos se empurrando. E nada mais. A massa que se encontrava e se perdia todos os dias. Fantasmas das pessoas que realmente eram em suas casas. Com suas famílias. Por entre portas e paredes que cheiravam a algo quente e acolhedor. Suave e doce. Erva cidreira e capim. O úmido quente da xícara de chá que se beberia em frente ao pequeno vaso de hortaliças. A única coisa viva que se encontra nos prédios cinzentos. Vida pequena e selvagem. Arrebentando suas raízes no fino vaso de plástico. Diferente de toda aquela umidade fria da garoa que agora grudava em suas roupas, cabelos e mãos. Até mesmo a ponta do nariz perderia o rubor gelado quando estivesse por entre as portas do lar. Ele seria também o primeiro a notar a diferença. A sutil e fundamental diferença entre as ruas ásperas e a casa que se abria aconchegante em seus tapetes e cortinas.
Mas apenas isso não bastaria a ela. A televisão era mais do que deveria ser. Companhia. Os livros na estante faziam mais do que sua parte. Emoções. A maquiagem andava intacta há alguns meses. O amor foi embora. O amor foi embora. Ou talvez nunca tenha chegado. Nunca tenha encontrado. A tela esperava ainda o momento propício. As tintas esforçavam-se por chamar sua atenção com suas cores. Mas tudo o que encontravam era a resposta de um coração quebrado que batia descompassado ao som de uma valsa que nunca tocara em seu pulsar inconstante. Que nunca ouviria. Faltava a música. A letra talvez estivesse completa. O que lhe faltava era a música.
Precisava de tempo. Sabia que o que precisava era de um pouco de tempo. Dirigiria seu carro. Gastaria seu próprio dinheiro. Pagaria suas contas. E talvez um dia pudesse falar do amor. Falar do amor com a propriedade que tem um escritor ao falar de seu próprio livro. Precisava de tempo. Todo mundo precisa de algum tempo. Mas a chuva caía rispidamente lá fora. Caía com a impaciência que sentia o professor de música ao tentar disciplinar um aluno. Todo mundo precisa de alguém. Todo mundo precisa ter alguém. Todo mundo é alguém. Já foi alguém pra outro alguém. Precisa ser alguém. Por detrás da capa de chuva. Por detrás dos escudos escorregadios do medo. Do medo de amar. Do medo da dor. Tem sempre alguém. Era janeiro. E a chuva caía nas ruas. Molhava os telhados. E as folhas do caderno de poesias. E os lábios intactos. E as mãos frias. Era medo. Tudo aquilo não passava de medo.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Aquarela

Se em uma aquarela pudesse descrever a tua face, mil cores transbordariam dela. As palavras. Transformar-se-iam em cores. Eu as jogaria para o alto, e como mágica cairiam lado a lado fundindo-se em mescla. Perfeita harmonia. Como a aquarela de um artista desconhecido. Pendurada no mais esquecido dos salões.
Posso olhar-te daqui. E para aqueles que me vêem, pareço hipnotizada. Presa. Com a impossibilidade de afastar meu olhar das cores e linhas. Os ângulos. E pontos. O mover dos teus olhos. As linhas dos teus lábios. Teus olhos são feitos de vidro. Duas esferas do mais negro vidro. Cintilam as estrelas que por certo roubaste em uma zombaria da noite escura. Abismo negro e profundo. As estrelas como a esfera de prata do hipnotizador. Contornam-me. Enlaçam-me. Como a cobra com sua presa. Cativa das esferas. Agarro-me nas tuas bochechas. Na tentativa de salvar-me desse abismo. Fixo-me nas tuas bochechas vermelhas. Bochechas vermelhas do sol. Do calor. Que invadiu a tua face. Teu corpo. E provoca o mover um pouco mais acelerado das tuas narinas. Imperceptível aos olhos menos atentos. Abrindo e fechando. Abrindo e fechando. Com maior freqüência que o natural.
Mas o contorno dos teus olhos, a tez da sua testa, são ainda lívidos. Não foram ainda afetados pelo calor. Como o mármore intacto. Os primeiros segundos do gelo na bebida quente. As bebidas. Todas as bebidas que um dia habitaram cada um de seus copos. Antes de alcançarem tua boca.
A boca pequena. Linhas finas. Lábios estreitos. E tão bem desenhados. Um sussurro escondido nos cantos. A boca que pede o silêncio e doa o sorriso. É o sorriso por si só. A forma do ângulo perfeito quando se une ao nariz. E ao queixo. E as bochechas. Orelhas. Posso esquecê-las. São belas quando não as notamos. E no desenho ela faz sua parte. Na harmonia dos traços. O pescoço. Melhor não entrarmos em suas linhas e ângulos, pois em particular, é um fraco. É onde se perde a noção do perigo que os olhos alarmaram, dos quais as bochechas me salvaram.
Voltemos ao queixo então. Se é perfeito quando mole ao sorriso, quando rijo e trincado na negação, é provável que se torne irresistível contrariá-lo. Mas minha boca permanece muda. E meus olhos absortos em tua face.
Tua face. Lívida e vermelha face. Seria de cobre. Ouro e marfim. Urucum e pó de arroz. Carvão e giz. A face pintada do palhaço. Do mímico. Da aquarela. Inebriada. Em cores. Limpa. Lavada. Em ângulos e linhas. E se não fosse lavada. E se não fosse tão clara... Como seria a cara? Como será a tua alma? Como seria...se um dia... Soltasse meus dedos. Um a um. E me desprendesse aos poucos das tuas bochechas. Lentamente. Entregar-me aos teus olhos. Abismo. Corredor negro de estrelas. Uma a uma. Caindo. Lentamente. Deixando-as pouco a pouco. Para trás...
Fecho os olhos. Suspiro. Abro-os outra vez. Agora são apenas vozes. E passos ligeiros em busca da porta. Já não há mais porque ficar. Levanto-me também. Rompimento. A quebra. Tudo volta ao seu lugar.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Almofadas

Talvez a forma como as almofadas estão dispostas na sala. “Largado”, assim, ele fica tão desarmado. Talvez respondesse sem pensar. Sem se esquivar. Talvez as almofadas. Ao contrário da postura que ele assume nos ensaios. Ao contrário da imagem que ele cria como sendo sua. Imagem. Nas almofadas ele fica sem escudo. Sem a máscara. E se eu perguntasse...
- Clara? Será que dá pra passar a música...?
Essa música estava me angustiando mesmo.
-Ah... Essa está melhor... Puts! É sua música Beto! Não lembra, Clara? A música de fundo do enredo de julho...
-Lembro... Lembro sim.
Ainda posso vê-lo entrando naquela festa. A primeira vez que o vi. Ou melhor, que o notei. Quebrando o gelo das rodinhas. Panelinhas de gente que não se mistura. O cabelo desfeito. Calças. Camisa. De tal forma que em outra pessoa não cairia tão bem. Não deslizaria. Não acompanharia o balanço do corpo. Não embalaria tão bem. A música. O corpo. A posição da cabeça inclinada para baixo. Como quem espreita a si mesmo. Como quem dança consigo mesmo.
-Estou oco. Morto de fome. Um lanche cairia bem...Mas a última coisa agora é querer levantar desse chão gelado...
- Vou derreter...Clarinha? Você anda tão distante ultimamente...
Voltei do devaneio alarmada.
-Eu?
Acho que confirmei sua suspeita. Mas não custa tentar.
-Imagina... Impressão sua.
Não convenci. Mas ele está sem ânimo para insistir. As almofadas fazem os olhos pesarem. Seus olhos estreitos ficam mais estreitos ainda quando está assim. Jogado nelas. E quando dança também. Ele fecha os olhos. E deixa ser levado. Ele se entrega. E eu me entrego. Charmoso. Ele é charmoso. Afe! A quem estou tentando enganar? Se fosse só o charme que nos tivesse feito chegar até aqui. Se fosse só charme e mais nada. Não teria chegado aonde chegou. Não teria aberto minha vida a ele. Não sou disso. Nunca fui. A coisa é que... Meu pai! Como ele é diferente! Não é só a inteligência. Talvez a forma como encara as coisas. Vai ver é só o cavanhaque. Ou a tatuagem no braço... Rá! Agora a culpa é da maldita tatuagem. A maldita tatuagem única que só um “cara único” tatuaria. Nem tão bonito ele é. Ou era. Porque agora então... Olhando daqui... Enfiado nas almofadas. Belo. Único. Simples. Tão gigante na sua simplicidade. Tem aquele gigante adormecido dentro dele. Aquele gigante que se posiciona nas horas de pavor. Aquela pessoa que não estremece com as maiores adversidades. Acho que a culpa é das almofadas. Da idéia de criar um ambiente. Um ambiente aos amigos. A ele. E as pessoas se jogam assim. Tamanho despojamento. Sem medo. Sem dedos. Sem “pisar em ovos’. E ele. Como o rei quando em fim deita em seu leito. Ninguém observando. Desarmado. E se eu perguntasse...?
-Acho que vou estourar pipoca...Vão querer?
De repente ele está em pé. Felino. Rápido demais.
-Eu quero...
-E você, meu amor?
-Hã...?
-Vai querer pipoca?...O que você tem Clara?
-Eu quero sim... elas estão no arma...ah...você sabe...
Não. A culpa é toda minha. Por ser tão vulnerável a ele. Ao seu sorriso. Seu cheiro. Sua pele. Sua voz rouca. Suas palavras lúcidas. Ele é correto. Age sempre de forma correta. Tão correto ele é. Não me enganaria. Não mentiria. Mas então por que. Se elas não fossem tantas e tão insistentes. Eu não as notaria. E são bonitas, as ordinárias. Tão ruivas. Tão loiras. Eu sou só castanha, como diria a Lygia. Sem graça e castanha. Castanha e pura demais. Mas algumas fumam. Ponto pra mim. Mas tem as que usam minissaia. E levam a certeza no olhar. Eu sou só castanha. Fãs. “São nossas fãs, Clarinha. Fãs da nossa arte.” Só se for da sua arte, meu amor. Da Sua arte.
Mas as piores mesmo são as hippies. Ele sempre se identificou com as hippies. As hippies e seus tornozelos finos. As hippies e sua pele perfeita. As hippies e seus olhos grandes. Elas sabem apreciar nossa arte. E droga. Sempre entendem nossa arte. E falam por meias palavras. E droga. Como ele gosta de meias palavras. Acho que vou virar hippie. Mas nem que eu quisesse. É o tipo de coisa que já nasce com a gente. Dei azar de nascer com o gene excessivo da paranóia. Paranóica. Ah... Como ele é inteligente! E quando pára. Pensa. Solene. Quieto. A tez sobre os olhos curvada. Os olhos aparentemente severos. Apenas meditam. E se eu perguntasse...? Será que ele pensaria antes de responder?
-Pronto. Pipocas quentinhas, meu amor... Ei, Beto! Acorda! Olha a pipoca...
-Desculpa não te ajudar...
-Foi só uma pipoca, Clarinha... Não me perco mais na sua cozinha. Aqui, pra você...
Ele estendeu uma das tigelas. Seus braços. Como são lindos seus braços. As veias que o percorrem. Seus pelos negros. Sua mão forte. E agora tão doce, me estendendo uma tigela de pipoca. Foram essas mesmas mãos que me convenceram de que eu deveria tentar. Foi naquela noite. Depois do ensaio. A direita, por baixo dos meus cabelos, sustentou minha nuca. A esquerda, circulou minha cintura, e prendeu a base das minhas costas. Enquanto seus lábios procuravam os meus. A força nos braços. Nos lábios uma súplica. “Me dê o seu amor”. Todos os dias. É o que tenho feito desde então. Até que ele se canse de mim. Da minha caretice. Dos meus cabelos castanhos. E das pernas que eu prefiro esconder. Até que ele abandone meu palco. Saia da minha cena. Meu grande ator. Meu grande amor. Até que ele deixe essas almofadas. E saia por aquela porta. Mas antes que chegue o dia, eu preciso saber. Preciso perguntar. E não importa ter o Beto como testemunha. Só preciso saber. E vou aproveitar as almofadas.
-Por que eu, Diogo?
Silêncio. O duro silêncio. A fração de segundo que eu tanto temia. O Beto, como eu já esperava, arregalou os olhos. Previsível. Ao contrário dele. Ele. Apenas encrespou as sobrancelhas. Olhou firme nos meus olhos. E de lábios duros e severos, diferentes daqueles que me buscaram pela primeira vez. Como quem responde a uma pergunta que nunca deveria ser feita. Disse apenas.
-E por que não?

domingo, 30 de novembro de 2008

Acabou.

"É a verdade o que assombra
O descaso que condena
A estupidez o que destrói
Eu vejo tudo o que se foi
E o que não existe mais."

E tão pouco tempo havia passado. Tanto medo. Os sentimentos embaralhados. A ausência. De quem mais ela esperava estar. Não. A ausência. E os dias sendo levados. Pelo tempo. Pela obrigação. E agora eles estavam ali. Os dois. Sentados na calçada. Ele tentava tirar a música. O violão. A voz baixa. Seguindo a letra do caderno imenso. Ela. Abraçada aos joelhos, com o queixo sobre eles. Eles estavam ali. Mas ela estava ocupada demais com seu novo projeto. E ele, consigo mesmo. Consigo mesmo...
As mentes voando. Distantes. Meu Deus. O que eu sinto? E foi entre uma palavra de acusação e outra que eles se perderam. Um dou outro. Eles se perderam. Os dedos apontados. Sempre. Sem olhar para o outro. O egoísmo. E nada. E tanto. A ser dito.
Ela deitou-se. As árvores estavam ali ainda. Inalcançáveis. Deixou-se ficar. Olhando aquelas folhas que se rendiam ao vento. Ele não me conhece. Meu Deus. Ele não me conhece. Tão pouco. Tanto. E nada agora. Uma súbita sensação de paz e auto-conhecimento arrombou seu peito. E luz veio aos olhos. A epifania. Agora eu sei o que eu quero. Eu sei. Eu sou.
Então, ela inclinou-se. E voltou a sentar-se, mas não na mesma posição de antes. Olhou-o nos olhos. Acabou. Ele prosseguiu como se nada tivesse sido dito. Você ouviu o que eu disse? Acabou. Meu processo de permuta. A equidise. A fragilidade. A carne exposta. A dúvida. O sentimento. A dor. Sim eu ouvi. Você disse que acabou. É, eu disse. Então ele prosseguiu. Como se nada. Continuou. Folheou seu caderno e continuou. Ela ouviu a última música. Levantou-se. Beijou-lhe os cabelos. Pegou a bicicleta e foi embora. Sem olhar pra trás. Ela foi embora.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Equidise.

Lembro-me como se fosse ontem. Ele partia. Meu irmão. Em busca de um sonho. De um futuro. E eu ficava. Tão menina. Tão nova. Nada sabia dessa vida. Só o que queria era as pessoas que amava por perto. Foi minha primeira partida. Falo dessas da vida. Deixemos a perda sem volta para uma próxima oportunidade.
Como doeu. E a primeira vez na rodoviária. Essa. Não vamos nos esquecer nunca. Magro. Careca. Lágrimas. Em todos os rostos. Mas depois. Conforme o passar dos anos. Lá estava. A diferença. Nunca voltaria. O crescimento. Nos olhos. A mudança. Não seria mais o mesmo. Daria um reino em troca de saber tudo o que se passou. Tanto passou. Tanto... A boca nunca revelaria o que a pele sentiu. O que a alma.
Vejo-me agora. Sozinha. Em uma pequena casa. Quatro dias de extrema solidão. De extrema. De análise interna. Olhar para dentro pode doer. Mas ah.... Lá estava. Os olhos. Perdiam-se numa parede, que para qualquer outro alguém seria branca. Escuta. Um som estranho. Começa de dentro. E vai tomando espaço. E cresce. Meu Deus. A pele se abrindo. A casca. Rompendo-se num tremor de ossos. “O que você sente?” E cada parte. O talho. Tornando-se maior. “AAAhhhhhhh...” Grita. Os olhos turvos. A pele, como a mente que se abre. E nunca mais. “Tenta se equilibrar”. Se rompe num todo. Sai. Por completo. A antiga. Idiota. Vulnerável. “Você não é daqui...só pode ter caído lá de cima...em alguma...não é daqui...”. Tola. Ingênua. “Isto fica feliz em ser útil”.
Agora. Observa imóvel. A antiga. Mas encontra-se ainda em carne viva. Exposta. Sua frio. Treme. Como proteger essa agora. E começa. Aos poucos. Uma nova. Bem aos poucos. Tão fina e tênue. Frágil. De início. Qualquer. Tudo. Pode rompê-la. De início. Sabe que quando tudo acabar. “E quanto mais fraca, mais forte eu fico.” É isso. E os olhos perdidos. Brilham ironia. Quanta ironia do destino. Quando tudo acabar. Mais forte. E aquele ardor nos olhos. E aquela forma de andar mudaria. As roupas antigas. Não mais serviriam. O tom de voz. O silenciar ao ouvir uma besteira. As lâminas dos olhos, cortariam mais.
Não perderia a valsa. Ah... Essa nunca. Mas os passos na dança. Mais firmes. A poeira do caminho. Estampada no sorriso ainda doce. Porque crescer não é perder a ternura. Ternura é coragem. Acendam as velas nos becos escuros. Sussurrem aos ouvidos. Pisem sobre os cacos de vidro. É preciso. É necessário. Para poder estender a toalha sobre a grama e deitar-se. Para poder contar não só as estrelas. Os dragões de fogo que cruzam o céu.
Para sentar-se na platéia. Para poder ouvir a orquestra. Para poder cerrar os olhos. E sentir. E haver as lágrimas. E haver o choro silencioso. É necessário. É necessário que a casca. Que esta. Que esta não esteja oca. Que esta não seja a primeira. Que esta não seja a ultima.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Nua.

Se o mundo acabasse naqueles minutos, não se daria conta. O caos. Seguindo. Se impondo. A dor. O chuveiro tenta arrastar com suas águas todo aquele sangue jorrado de suas entranhas. Soluços. Desespero. O punhal cravado pelas costas. Meu Deus. Pra que tanta crueldade. Os cabelos pingando. Fora do banheiro. O quarto se encolhia. Fechava suas paredes e teto sobre ela. Comprimia seus ossos. Sufocava sua respiração. Ela levanta da cama pra tentar respirar melhor. Inútil. Não consegue. O ar fugia dela. E as paredes se fechavam. Engoliam-na. Ela pula da cama, que mal discerne dos outros objetos. A vista totalmente encoberta pelas nuvens de dor. Pega a chave. Sobe na bicicleta. E sai. Pedala. Corre. Como se estivesse fugindo. Agora na rua pode gritar mais alto. Agora, sem as paredes, pode ver a penumbra distante da rodovia. Distante. Era tudo o que precisava. O escuro. Refletindo o que havia nela. As ruas e casas passam. Para ela são todas iguais. Não vê números. Nem nomes. Os rostos não fazem sentido. O céu espalha as estrelas. Pra confundi-la. Pra aterrorizá-la. Frio. Calculista. As palavras ecoando em seu coração. Frio? Não imaginava. Nunca. Meu Deus. Pra que tanta crueldade. Meu Deus. A Lua. Escondeu-se. Não quer ver. A menina que antes sorria pra ela. A lua até. Até essa se esconde. E faz seu joguinho. Lava as mãos. Vire-se querida. A dama que bateu em sua porta. A dama. De preto e olhos profundos. A solidão. Acompanhou cada movimento desesperado daquela figura pálida. E ria. A desgraçada ria largamente da figura patética daquela moça. Enquanto ela corria. Fugia. Queria que a bicicleta voasse. Ou entrasse debaixo da terra. Só o que não queria era ser vista. E a dama. Permanece. Sempre ali. Ao lado. Pode virar-se e sair por uns instantes. Mas ela volta. Sempre volta. E se impõe.

Sunday, Bloody Sunday.

A procura. A gente sempre se encontra só. Não quando só. Talvez entre um cigarro e outro. Perceba-se só. Mas então por que. A busca ocorre internamente. O eu minimizando-se a pó. E tudo que temos são as lembranças do que não foi vivido. As marcas deixadas na palma de nossas mãos, diria a Lygia. A prova do fogo. Que não ardeu. O fogo da argola pela qual pulamos. Passa-se reto, na maioria das vezes.A sombra buscando refúgio no chão. Perseguindo uma bicicleta que segue distante. Longe. De tudo. Voaria se pudesse. Sumiria. Deixaria a dúvida de ter existido ou não. Seria sonho. Apenas. Nada de ossos. Olheiras. As estrelas ainda estavam lá. Não todas, é claro. As mais brilhantes costumam se esconder nas horas de confusão. A porta faz barulho quando fechada. O portão gritou. Escapou de minhas mãos. Peço desculpas. Aceitas. O choro não estava mais. Agora só os gritos. Internos. Ecoando as paredes do quarto. Vai. Se joga. E a parede insiste em ser branca. Em ser matéria. Em ser sã. As pernas. Pra onde foram? Os braços. Onde estão? O abraço seria real? Ficou só a pele. A imposição do sexo. A procura. Quero ser então. Quero fazer. Como o autor. Do livro. Aquele na estante. Da queda um passo de dança. Do medo uma escada. Do sono uma ponte. Da procura um encontro. É o que falta. Escada. Ponte. Encontro. Talvez.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Medo de Amar

“No centro de um planalto vazio
Como se fosse em qualquer lugar
Como se a vida fosse um perigo
Como se houvesse faca no ar
Como se fosse urgente e preciso
Como é preciso desabafar
Qualquer maneira de amar varia
E Léo e Bia souberam amar
Como se não fosse tão longe Brasília de Belém do Pará
Como castelos nascem dos sonhos Prá no real achar seu lugar
Como se faz com todo cuidado
A pipa que precisa voar
Cuidar de amor exige mestria...”

(Oswaldo Montenegro)



Caía lentamente a taça de sua mão. O vinho espalhava-se pela toalha de linho branca. Era isso? Então ele a amava. Estava ali. Em sua frente. Com os olhos cheios de lágrimas. Ele a amava. Mas não suportava. Não podia suportar a forma como a amava. Traição. Segurou a fúria. O ímpeto. A ira tomou conta do corpo que erguia sua mão num gesto agressivo. Parou. A mão pensa no ar. Não deu o tapa que o rosto vermelho de lágrimas já esperava. Respirou fundo. E quando menos se deu conta, era no seu rosto que sentia as lágrimas escorrerem. Pegou a bolsa. Levantou-se. Saiu. Virou as costas e saiu. Pela porta da frente daquele restaurante frio.
Na mesa ficou aquele homem. Aquele pequeno homem perdido. Pálido. Chorava silenciosamente. Mas por quê? Não era isso o que ele queria? Desde o momento em que entrou naquele lugar. Sentou naquela mesa. Era isso o que ele queria. Desde o momento em que entrou naquela boate. Abafada. Em busca. Em busca de algo. Que tirasse. Que arrancasse dele. A bebida. Muita bebida. As mulheres. A traição. Procurava de alguma forma tirar. Arrancá-la de dentro dele.
Não podia mais suportar. A forma como ela entrara em sua vida. Sem pedir licença. Apossou-se de todo o espaço que havia dentro dele. Quando estava por perto o deixava torpe. Inebriado. Seus olhos. O sorriso. O modo como encarava a vida. Seu cheiro constante de shampoo. De alma limpa. Tudo. Não podia mais. Onde quer que fosse lá estava ela. Em tudo que fazia, via seus gestos. Simples. Fortes. Únicos. Podia lembrar ainda, como aos poucos se instalara. Chegara. Modificando-o. Ela era especial. Ele “tinha” que ser especial também. Não podia mais.
Noites. Bebidas mulheres. Foi tentando matar aos poucos o que dela havia. Nos copos. Em outras mulheres. Mas era inútil. Tinha que dar um basta real naquilo tudo. Se fechasse os olhos e continuasse a ver... A forma como escovava os dentes. Os dedos fazendo rolinhos com mechas de cabelo, enquanto distraída, olhando para a TV. Meu Deus! Como ela estava em toda parte! Mesmo com todo aquele som alto. Vulgar. Penetrando em seus ouvidos. Aquele timbre de voz. As risadas. Não saíam da sua cabeça. Não! Chega! Não podia... E os amigos? As festas? Não queria. Amá-la era demais pra ele.
Foi então que decidiu. Mas por que agora doía tanto? Por que chovia lá fora? Por que tanto frio? Aquele vazio. Levou consigo o que de melhor havia nele. Por aquela porta. Fleches. Seu rosto. As lágrimas... Meu Deus! Ele a machucara! Como foi capaz? Se deu conta do quanto a machucou com aquelas palavras. A aparente frieza dos olhos vermelhos. Como foi capaz? Era mesmo um canalha. Ela tinha razão. Mas então por que... Doía tanto? Canalhas... Não deveriam sentir... Deveriam?
Ele não era um canalha. Só não aprendera a amar. Ou aprendera. E por isso... O medo. O medo tomou conta dele. De qualquer forma... Pagou a conta. Vestiu o casaco. E saiu. Pela mesma porta que ela. Ele saiu. Mas não saiu inteiro. Deixara seu coração naquela taça de vinho espatifada. Na mancha vermelha que escorreu pela toalha.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Rosas na Janela.

A luz da lua banhando a cama. Presenteio-me com rosas. Aprendi a não mais esperar que me tragam flores. As compro. As planto. E elas sorriem pra mim. Elas sorriem pela manhã. Num riso molhado do pranto-orvalho da madrugada. Eu rio de volta. Num riso gostoso. Natural. De menina. Por ventura, mulher. Na geladeira a mesma frase. Prevalece o riso. Ainda que a madrugada chore. Ainda que deixe gotas de orvalho suspensas nas pétalas recém abertas. Pela manhã é que se respira. Ainda que a madrugada chore. Prevalece o riso. Meu riso. Teu riso. Tuas pétalas. Teu cheiro. Debruçado sobre minha janela.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A Noite e o Vento.

A moça. Sentada junto ao parapeito da janela. Observa a noite. O asfalto escuro. As ruas. Largas ruas. Sombria e inexploradas. A visita recente da chuva deixou marcas no cenário. Pequenas marcas. O cheiro. As narinas apuradas reconhecem com prazer aquele odor. Fazem com que os olhos instintivamente se fechem. O prazer que aquilo tudo provoca nela. Instinto de caça. Mas não confunda aqui, caça com morte. O contrário disso. Vida. Tato, olfato e paladar. Vontade louca de sair pelas ruas em busca. Do quê? Não sabe. Só sente. É vontade. Liberdade. Correr. Voar. Queria os pés descalços. O vento a percorrer seu corpo. E aquele cheiro. O cheiro...
“Ah...” Suspira. Encosta levemente a cabeça na grade da janela. E sonha o futuro. Os rumos que sua vida tomará. Teve sempre nas mãos linhas profundas. Certas. Os olhos. Grandes. Agora, as pupilas dilatadas. Pudera mastigassem seu coração. Pudera encontrar aquele ser que lhe retivesse a alma.
O homem de “olhos de ressaca” Sim. Seu homem teria obrigatoriamente olhos “oblíquos e dissimulados” (perfeita descrição fez Machado de Assis do que ela precisa). Posto que para reter-lhe a alma são extremamente necessários olhos que aprisionem os seus. Ressaca. A puxar. A reter. A prender. A aprisionar.
Ele teria mãos maiores que as suas. O que não seria muito difícil, já que as suas eram tão pequenas. Mas seriam maiores. No encontro com as suas, transmitiriam ao mesmo tempo segurança e um convite a voar. Juntas. Atadas.
É certo, também, que seria inteligente. De sua boca nunca sairiam palavras que a desrespeitasse. As palavras não fariam dele um homem grosseiro. Vulgar.
Mas é certo que a boca seria bem mais que bonita. Só bonita não a enfeitiçaria. Seria obscena. Lábios, dentes e língua. Obscena seria a boca. Capaz de mastigar-lhe o coração. Triturar-lhe os sentidos. Confundi-los e atá-los um a um. Em um desvario mordaz. Mas não confunda, aqui, mastigar com dor, sofrimento. Mastigar porque sem aquela boca sentiria que não mais pudesse viver. Fonte inesgotável de vida. No desenho incomum e na corpulência a luxúria inegável. A mastigar. A devorar. A sua. E o seu coração.
E que o mais imprescindível não seja aqui esquecido. A alma do rapaz. Seria mais que um caminho a percorrer. Labirinto. Labirinto sim, já que era necessário que se preocupasse em desvendá-la. A alma. Indecifrável. Causaria nela a expectativa infindável de a cada busca. Um algo mais. Nunca previsível. Surpreendente. Sempre a delícia do mistério. Por mais claro que seja. A cortina do mistério era necessária para mantê-la ali. Presa a ele.
A essa altura a moça já se meche impaciente. Quer sair dali. Fechar a janela. Parar com pensamentos absurdos. Onde já se viu. Não se achava muito normal, mas daí a sentir esse absurdo desejo pelo novo. Era de aquário. Aquilo de explorar, do obscuro. Do cheiro. Sair em busca. O mistério. Tudo a inquietava. E de certa forma sente-se confusa no desejo. Posto que nada há nele de concreto.
Mas daí, apertando os olhos... Na rua. Na noite. Distante. Formou-se o perfil. Sim. É dele o perfil. Pode enxergar agora. Como uma lâmpada que se acende. A epifania. O perfil. Ele. Nele. Tudo o que de impalpável e abstrato procura na noite. Nele. Agora ela entende. Ela o vê. Como a noite. E tudo o que ela representa. Seu perfil delineia os mesmos traços. As mesmas características. Obscuras. O mistério. A liberdade. Tudo.
Todavia, ela, incomum também. Ela é como o vento. E ele seria um tolo se acreditasse que é tudo o que ela precisa. Há na canção antiga a certeza disso. “She is like the Wind”. Ele a noite. Ela o vento. Ela é parte dele. E ele parte dela. Na união perfeita. Uma coisa só. Mas que ele cuide. Cuide bem dela. O vento...

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Neuróticos.

“Botei a palavra certa pra doutor não reclamar.”

Aula. Se desenrolando. “Atenção!”. Deve ser bem interessante impor a atenção às pessoas. Às vezes faz-se necessário. Falando. Falando. Por que será que me sinto tão pequena quando assisto à sua aula? Põe-me sempre duvidas na cabeça. Até o certo e o errado impõem. Convincente você. Pare de me manipular, homem de Deus. Certo então.
“Se” é assim. “Se” tem embasamento teórico. Quem sou eu. Quieta então. E em tudo minha cabecinha “mirabolante” faz uma relação com a Literatura (de alguma forma isso tem que ficar interessante).
“... Placebo. Vocês sabem o que é placebo. Não é?”. Machado escreveu um conto sobre placebo. Ótimo. Muito bom mesmo. E por aí vai. “... números... dados quantitativos, característicos do pensamento ocidental...”. É verdade. O Antoine questionou muito isso no: O Pequeno Príncipe. “Coisa de gente grande” O dizia. E por esse caminho vai... Pesquisas. “...devem ser feitas embasadas. Grandes nomes. Não em pequenos autores. Podem ser desmentidos amanhã.”. Concordo com você. Mas e a coragem? Que preguiça. Tanto a fazer. Nada de vontade. Mas daí... Lembro de algo também. Antoine. De novo vem a mente. Lembro aquele trecho de: Vôo Noturno. Agora com o livro em mãos, se reaviva mais claro: “...compreendi também o que sempre me causara espanto: Por que Platão (ou Aristóteles?) coloca a coragem na última fila das virtudes. Não se compõe de sentimentos especialmente belos: um pouco de raiva, um pouco de vaidade, muita teimosia e um prazer desportivo banal.”. Prazer desportivo banal. Adoro.
Nesse mesmo livro ele disse também: “Não pensava escravizá-los com essa severidade, mas sim libertá-los de si próprios... Ame aqueles em quem manda. Mas sem lhes dizer que os ama.” Será que você nos ama?
“Neuróticos. Somos todos neuróticos. Acredito que não tenha nenhum perverso aqui...Acredito...”. Riso geral. Será?
“A inteligência é questionável”. Concordo plenamente! Em gênero, número e gral. Não se mede inteligência. Não é tão simples assim. “Você se acha mais inteligente que um macaco?”. Longe de mim... “Pois então vá viver na selva.” Pois é. Concordo. Mas então manda ele lá pra casa. Quero ver como ele se vira... Aiai...Piadinhas apenas...Piadinhas..Não leve-me a mal.
A aula. Nossa... Que é que estou fazendo aqui? É sempre essa a sensação. Põe medo. Assusta. Faz pensar que estou no lugar errado. Crise existencial! Quem já não passou por uma. Amo isso aqui. Só esses momentos de segunda-feira que me deixam assim. Amanhã à tarde animo de novo. Outras aulas. Encontro-me nelas. Qual será minha área dentro disso tudo? O que fará meus olhos brilharem. Não faço muita idéia. Veremos. Empurra com a barriga. Veremos. Ele está certo. Certíssimo. Veremos. Ai... Que ansiedade. A vizinha de carteira, copiando minha matéria (praticamente ilegível no caderno): “Preciso de chocolate”. Neuróticos. Somos todos uns Neuróticos.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

As horas Breves

Dedico à minha constante.
Ao meu amigo.
À minha alma.

Quarto. Domingo. Inércia. Você. Chego com um sorriso no rosto. Aposto que você ainda não levantou dessa cama hoje. Você ri, num riso meio bobo de quem discorda concordando. Reclama. Por que não veio antes? Viria se pudesse. Sempre que posso venho. Me encosto. Tão natural. É tudo tão simples quando a gente está assim...
Com você eu posso falar dos meus sonhos estranhos da noite, dos meus medos, deixo sempre tudo assim, meio vago. Você entende. Comigo você pode falar do seu dia. Da sintonia. Das coisas que se passam. A gente fala de um Café. De uma faculdade que poderia acontecer depois dessa. Letras. E por que não?
Daí ronronando você deixa o msn de lado. Deita ao meu lado. E a gente fica falando do futuro. Dos amores. Das dores. Faço carinho no seu rosto, assim natural... Nem percebo... Você, uma criança doce. Ao meu lado.
O tempo parece que voa. Vou ficar só duas horinhas... Mas vou sempre tão tarde....Por que passa tão depressa? Tenho que tomar meu remédio...Mas tão bom aqui. Fica vai... Fica...
Ouvimos e cantamos músicas. Às vezes a mesma por diversas vezes. “Que letra linda!” De alguma forma a gente sempre se encontra nelas. Rsrs...Você não reparou?? Não acredito... “...aquela que um dia o fez sonhar se foi com outro, no dia em que os dois se casariam por amor...” “Eu não tinha reparado.....”.Caio de rir com essa sua cabeça avoada. Acha lindo, mas não entende. Entender....Acho que no fundo ninguém entende nada. Só aceita, não é mesmo? Aiai....como a vida é bela... rsrs...
Te faço perguntas e você promessas. Será que vai mesmo ligar de Amsterdã? Olha que longe você me esquece. “Esqueço nada...”. Talvez uma constante. Talvez não. Tudo depende da força verdadeira dos laços. Quem sabe um dia se viajar no tempo, me ligue dizendo um “olá”.
E quando você viaja seu quarto fica tão calado. O som da falta da sua voz ensurdece meus ouvidos. Os objetos espalhados pelo quarto, inertes, mas em cada um, um movimento seu. Em cada canto sua presença. Alguém me tire daqui!! Impossível esse lugar tão cheio e vazio de você. Volta. Volta logo. Traz as malas e fotos. Fatos. Seu final de semana.
E quando voltar me abraça bem apertado que é pra eu saber que vai sempre estar aqui. Mesmo que não esteja.
E quando voltar sorria aquele seu sorriso largo. Pra que eu entenda de uma vez por todas que o hoje vale a pena. Que é só ter um pouco de força, e tudo ficará melhor. Exatamente onde deve estar.
Semestre que vem? Que venha. E que até lá, tudo fique mais fácil pra nós dois. Cada um na sua luta. Cada um na sua fé. Cada um na sua dor. Mas que exista um pouco de mim em você. Que eu seja uma constante em sua vida. E o pouco de você já está dentro de mim. O pouco é muito. O suficiente pra que eu ria seu riso. Pra que eu chore seu pranto.

Aos Cachos Molhados

“Cachos no banco da frente... Da cor dos seus... Mas não eram os seus. Os seus deveriam estar molhados naquele momento...”.
Os pés frios e úmidos. Como a calça, a blusa de moletom, as meias, o tênis... A bolsa acho que já secou...
Damaris e malas (no plural) molhadas pelo caminho. Caminho de chuva, e aquela dor “ainda não diaguinosticada” na perna. Eu juro que tentei, mas não consegui não ficar irritada com Deus. Pôxa! Custava continuar segurando a chuva por mais uns minutinhos?
Você também não se deixou segurar pela chuva ou pela hora. “E quando é que eu não durmo tarde?” “Não posso sair na chuva, mas to aqui, não to?!” “Quando chegarmos na rodoviária você vai trocar essa blusa por uma seca”. Não tenho... Lavei ontem a outra blusa. Não secou. Só tenho duas... “E agora?? Vai viajar molhada?” Acho que vou... “Como você é teimosa! Tinha que ter me esperado!”
De início foi seu sorriso que fez a irritação passar, depois a idéia de que você, apesar de tudo, estava ali. Não esperava. Juro. Mas tem sempre aquela “esperançazinha” de que as coisas aconteçam num passe de mágica. Dessa vez aconteceu. Você estava lá. De bicicleta e guarda-chuva. Você me alcançou.
Está certo que depois do sorriso só foram broncas e perguntas difíceis... Mas você estava ali.
Não consegui subir na bicicleta. Você não imagina o quanto foi difícil pra mim, querer, mas não alcançar o pedal e você lá na frente, se distanciando com minhas malas... A chuva ficou mais forte naquele instante (só pra ajudar...). O jeito foi gritar por você e correr, ainda que cambaleante. Agradeço à minha perna por ter me obedecido naquele momento. “Não precisava pedalar, era só descer! Como você é teimosa... Agora vai ficar tomando chuva...” Vou sim. Junto com você.
5 minutos. A insistência daquele tempo que deveria ter te esperado. “Por que você saiu antes da hora que a gente tinha combinado?” “Você sabia que esse tempo era o tempo que levaríamos guardando minha bicicleta e pegando a sua? Olha... A chuva parou!E isso tudo porque você é teimosa...” (ele realmente me acha teimosa). Acho que minhas explicações não faziam muito sentido. Vai ver porque minhas atitudes também não fizessem.
E na rodoviária você insistia: “Você já parou pra pensar que suas roupas estão todas molhadas dentro da mala?”... “E se seu celular tivesse estragado?” “Só tem duas? Você precisa de roupas novas, não acha?”. Eu sempre digo isso pro meu pai...rsrs (só meus...você permanecia sério, como uma esfinge).
A despedida teria sido mais difícil se você não dissesse com aquela cara sua (já tão conhecida minha) “Ai.......você ta toda molhada...” E me irritou com a obviedade do comentário. Mas sei que você é “fresco” e não é culpa sua.
Mudei de poltrona pra ver você se distanciando pela janela. Já sentia sua falta. E o medo que longe, você não soubesse se cuidar sozinho. Mas afinal, quem cuida de quem?
“A caráter de observação” (adoro quando você diz isso), já passei por Prudente enquanto escrevia. Troquei minhas meias e tênis molhados por botas e meias sequinhas. Comi um pedaço de pizza, e agora, no ônibus, uma linda garotinha de uns 5 anos acabou de me oferecer uma bala, eu aceitei e como agradecimento, dei duas à ela (que tinha vindo como troco da pizza. Quando ganhei não sabia o que fazer com elas. Agora vejo que tinham um propósito). A mãe comentou com a menina “Viu só? Você deu uma e ganhou duas”. Acho que ela vai ser uma boa pessoa se crescer acreditando que tudo que der, virá em dobro.
Engraçado isso né? “Isso o quê?” (você perguntaria). Não sei...Isso tudo.
Mas agora, depois desse tempo todo, tenho a resposta para todas as suas perguntas de hoje: Me perdoa? Por ter esquecido que você é diferente. Por ter pensado que agiria como qualquer outra pessoa. Não. Você não. Você veio. Você sempre está. Irmão. Amor. Amigo. Sempre.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Drummond

Drummond já se perguntava “pra que tanta perna, Senhor?” Mas aí o problema dele já era outro. Referia-se as pernas das moçoilas nos bondes. Nossa! Bondes. Queria eu ter andado em um.Tem em São Francisco... Tão Longe. Só de pensar minha perna grita. Ai...quietinha aí! Ninguém vai a lugar algum. “Põe uma meia menina”. Ouço e sem protestos obedeço, o pé já roxo, só faltava um empurrãozinho pra dar coragem de levantar em busca da meia quente.
Às vezes é o que falta pra gente. Pequeno empurrãozinho ou chaqualhão. Da vida, do vizinho, de quem quer que seja. Me empurrão. Tropeço, caio, rolo, levanto, limpo as mãos no jeans batido, enxugo o suor da testa e sorrio. Num sorriso doce de quem pra colher a manga precisou escalar o pé. Pé. Ah... as pernas! Para Drummond “pra que tanta perna”, pra mim, pra que tanta dor.

Empada

Coloca o capacete. To pronta. Fala, fala, fala. Não sei como consegue dirigir comigo falando e falando...Ora bolas! É nisso que dá deixar que haja acumulação dos fatos. Coxinha, empada, torta. Torta de tanto comer. Poxa! Agora vou ter que tomar a coca sozinha...Não bebe mais refrigerante. Vamos comemorar o emagrecimento comendo empada! Ai que delícia! Aproveita e fala. Conta tudo. Põe na mesa. Fala, pondera... Parece que tudo faz mais sentido quando agente fala. Mesmo que não sejam os fatos por inteiro, ficam os fatos que se entende. Entende. A que ouve e que fala, até essa passa a entender melhor o que tinha na cabeça. Vai se desfazendo o novelo dos pensamentos. O colorido dos fatos, a lã colorida.
Um cachecol de medos a enrolar a garganta, uma meia confortável de acontecimentos, engraçados ou não, aconteceram. Já foi. Confortável agora. E o casaco quente da esperança no amanhã. Penso, minha tia fazendo um cobertor de quadrados de lã. Depois ela junta todos eles e forma a coberta. Nossa! Junta tudo e faz sentido. Aquece, enfim. Penso mas não falo nada. Melhor deixar pra lá. “Vai querer pastel? Vou pedir um pra mim.” Não. Acho que não agüento mais nada. Mentira. Trufa cabe! (Ajuda no caminho de volta, distrai a cabeça que distrai a perna...) Gulosa! Ah... hoje podemos...risos... Acho que a gente está se moldando um pro outro antes de se conhecer, não acha? “Foi o que eu te disse!” Fico feliz. Conformada. A gente sempre se conforma.
“Me lembra de passar na frente da casa!” Lembro sim. Quero ver onde fica. Puts! A casa é enorme! Também... Estou sendo egoísta? As vezes me acho egoísta. Tem certeza que não? Não me custaria... “Você tem motivos” será mesmo? Hum...não sei... “A nutricionista disse que perdi algumas gordurinhas e ganhei musculosinhos!” Olha que belezinha! E eu que como a metade do que você come e tenho o dobro das suas “gordurinhas”. Risos. Por que será? Metabolismos, minha cara. Metabolismos.

Grogue

Meio grogue. Acho que esse remédio me deixa meio grogue. No mercado as pessoas passavam lentas. Eu lenta. Hem? Ai... desviei minha atenção. O que você tava falando mesmo? Hum... certo.
Esqueço-me numa manhã do remédio. Vem Rosa! Dança uma valsa comigo! Giro com ela e a vassoura que ela tinha nas mãos pelo ral. “Menina! Não... ô Menina, eu não sei dançar isso não...hahahahahaaha...pára com isso menina...” Eu te guio Rosa! É tão simples! Parararará... papa papa... parararará... papa... papa... Rio. Rimos. Deixo-a prosseguir com a vassoura e sigo para cozinha. Forró. No rádio tocando forró. Ameaço uns passinhos... A tia segue. Anima-se também! Até mais. Sinto a dor, mas não ligo. Tão gostoso. Até a pequena da família quer entrar pra dança.
Terminamos na mesa escolhendo feijão. O remédio? Só tomei depois do almoço. Não tira a dor, só faz dormir. A Dor? Estava. Como sempre estava. Só um “tiquinho assim” pior mais tarde. Agora entendo porque dois dos componentes daquelas cápsulas bicolores tratam-se de calmantes. Ah! Controlados! Os meus também são controlados P.V. Sejamos controlados então! Tarjas. Nós.

Dor

DOR. Dói tanto. De onde vem tanta dor? Em correntes quentes pela perna num fluxo de dor... a de haver pra onde ir. Então porque não vai? E por que se junta tanta coisa a isso? E por que um osso custa tanta dor, vômito, convulsões as pernas não agüentam teu corpo meu pequeno? Então deita teu corpinho aqui no paninho. Vai ficar tudo bem. Eles estão cuidando de você, pequeno, amanhã com o sol volta a tua força, tua alegria. Deita aqui e dorme um bocadinho. Ah...dói aqui também... desculpa...eu queria ficar, mas dói. Preciso deitar. Deitar. Droga! Merda! Pra que tanto deitar? Banheiro, cozinha, sala... cansa. Volta e deita. Cansa por quê? Dói por quê? Que bom, meu Lulinha, que a saúde do país está beirando a perfeição. Então corre e avisa pra ela que ela ainda não sabe. Assim sabe e sai meu exame.
Telefone, preocupações. “Manter tudo sobre controle”. Quer mesmo que eu mantenha? O que é manter o controle pra você? Vê se escolhe bem. Não se envolve. Como? Ahn? Ah...tão cansada...perna, aquele, aqueloutro, cachorro... ai... o rádio não ajuda...ninguém está ajudando muito hoje. Nem essa porcaria de caneta que fica vazando. Vaza. Vaza. Vaza o preto da tinta, meus olhos vazam. Vazam o sal da água.
Para de doer! Esquece essoutro problema também! Muito problema numa coisa só. Imagine? Mal me agüento nas pernas e vou comprar briga. Briga perdida, carimbada selada e extraviada (palavrinha, ôxe!). Problema que não extraviou pra muito longe não! Aqui debaixo da fuça! “ Na rua em que a menina foi estuprada, lembra?”. Logo ali, perto da rua do amor platônico. Nossa! Mas tão perto? Virge! Que será que eu fiz pra merecer, ahn?. Besteira. Coisa pouca. Pior mesmo é a saúde nossa. Minha e sua...né pequeno? A do P.V também. Saúde do corpo. A dele é da alma. Demora mais. Meio mês não é suficiente. Cuide-se. Entra num ouvido e sai pelo outro. Pronto. Escrevo e pronto. Tudo se alinha. No caderno e na cabeça. A dor é fratura exposta. Exposta. Está olhando o que? Nunca viu? Nunca sentiu? Pois sigo melhor agora. Fecho o caderno, como alguma coisa, TV, cama e amanhã penso e espero. Vamos! Luta! Segue... Pego minha cruz e te sigo. Me dá a mão que te sigo. Obrigada. Te amo.

Tarde

“Dandar, dandar! Dandar pra ganhar tentem!” É o jeito né? Já que não posso passar o dia todo deitada... E já que faz bem para o tratamento esticar um pouco as canetas... Só uma voltinha pelo quintal. A mãe varre. O cachorro ao sol. Ei! O “senhor” aí! Deitadão com a fuça à paisana... Vem caminhar comigo... Vem meninão! O rabo e o corpo abanam enquanto vem. “Dandar...” musica besta! Não sai da cabeça. “Tentem”. Quem dera. Vou é ganhar a dorzinha. Por isso o banco. Leve. Trago comigo. Precaução. Adoro essa palavra. Os pés: claros com as pontas levemente rosadas. Nunca tinha reparado neles assim.
Ai... Os quartos... Doem... Rio. Os quartos. Lembro o P. vendo um “treco de pular” na TV. “Se caio desse negócio quebro os quartos, não cola mais...”. E ele ri. Sorriso largo de olhinhos quase fechados.
Vamos lá! Comigo meu companheiro peludo! Marrom. Cantarolo para o focinho molhado de olhos amêndoas que me observam. Eu e minha vocação pra musiquinhas bobas. Nada como uma alegria quase que infantil para adoçar o amargo da vida. Como transformar jatobá em melancia.
Leve como uma pluma de pernas de pau, faço o contorno da árvore (a M. dizia pé de planta quando os molhava) e volto pelo mesmo caminho que vim. Mas dessa vez com a idéia fixa de um banho “antes que escureça”.

Saudades...cidade dos bons ares...

Nove segundos pra fazer um gol! Ficou pra história da libertadores. Não foi meu time. Mas meu time ganhou ontem. Os nomes dos jogadores? Marcos, Valdívia... O do cabelo que era grande, sorte não ser Sansão... Os outros? Não lembro. Não sou de jogo, mas quando assisto, ele ganha.
“Um amuletinho da sorte”. Lembro-me como ontem...Botucatu, as amigas dizendo. Passa pelas casas. Deixa coisas boas. Pena não poder voltar nessas férias. Precisava carregar minhas baterias com vocês todos. Vocês trazendo sempre coisas boas. Sem maldade. Aquele sentimento acolhedor. De entrega. Sinceridade. As praças. Violões. Sorvetes. O largo da Catedral. As pombas! Lembra-se? “Tinha uma pomba no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pomba...” rsrsrs. Faz falta...
Queria sentar no banco do passageiro, ver a Loira dirigindo. Veria em nós duas pokemons (como em nós xuxua!) rsrs. Rir. Rir muito! Até cair no chão de tanto rir! (a lagartixa, lembra?). Lei seca? Que bom! A gente não bebe mesmo. Nem o Davi. E o meu? Será que ele bebe? Será que dirige? Qual será o formato das suas mãos?

Madrugada: Olhos Fixos.

Na madrugada aqueles olhos inquisitores: “Você me ama?”. Claro que amo... “Não estou falando disso, quero saber se me ama como amará apenas um.” Mas por que isso agora? A essa hora da madrugada. É mesmo relevante? Saber o que nem eu sei. Os lábios tremiam. Olhos fixos nos meus. Na maior parte do tempo, disse, finalmente, eu não sei. Em outras horas vezes amo, vezes tenho medo. “Medo de que?” De ti! Ora essa! Não sabe quão perturbador é acordar com teus olhos, teus lábios trêmulos, a me questionar... Sempre... O peso da tua presença nula. Nula. Porque desconheço suas feições. Não sei quem é você. Só posso ver teus olhos, lábios. E quanto medo me invade... A essa hora?
Não sabe? Pois se não sabe, não sou eu quem vai dizer. Viro de lado, retomo o travesseiro nos braços. Suspiro. Vai-te embora! Ô traste! Não te revelas nunca! Pergunta boba... Ora essa...

Telefone

Telefone. “Aqui? Somos em 7”. Pensei: E seremos por um bom tempo. Número ímpar. Sempre pensei que os números pares fosse os da sorte. Mas os meus são: 3, 5, 7... Acho que errei um pouco na estatística. Que bom. Meu senso de humor continua intacto! “Vem com a titia hérnia, vem bebê!”

Sonho

Vejo uma trilha com terra, árvores por todos os lados, sigo cantando e dançando alegremente. A água da chuva cai como confete sobre minha cabeça. A música é ouvida por todos que querem. Estou sendo observada... Uma pequena casa, um sobrado. Na janela alguém que nunca estaria ali. Renato. Ele mesmo! O Russo. Ele sorri. Com dor, mas sorri por ver meu sorriso molhado da chuva. Mas a música alegre pára... “Se a paixão fosse realmente um bálsamo...”. Triste. A paixão dói. Ele não sorri mais. Agora ele chora, ele grita, ele sai na sacada. Nu. Apenas de cueca branca. Branco e branca. O corpo ilumina. Como quem é de luz. Mas perde a força. Agarra-se nas grades da sacada. Chora. Chora sangue. Meu coração ouve seu apelo mudo. A minha alma ouve a dele. “Deixe-me ir...” eu me desespero! Corro até a porta dura de madeira molhada, tento abri-la. Coloco toda minha força nela! Dou socos. A chuva aperta. Forte. Trovões... Raios... Relâmpagos...
Encostada na porta, deslizo por ela sem forças, choro tanto... Dói tanto... “... essa dor... longe do meu lado...”.
Num susto levanto. Vou num desespero até a frente da casa. Ele está caído na sacada, encharcado, de olhos fechados. Silêncio. Está partindo. Eu não o alcanço! Não posso tocá-lo. Jogo-me ao chão, sinto o gosto da terra nos meus cabelos encharcados. Choro... Grito... Dói tanto.
Ele me escuta... a alma...porque o corpo permanece imóvel. Empieda-se por mim, e volta... Um pouco por mim, um pouco por ele mesmo... Entrego-me ao cansaço daquela cena. Sinto meu corpo perdendo a força, como numa transferência de vida. Sono. Ele acorda. Eu adormeço. Não vejo mais nada, porque não consigo abrir os olhos, mas sinto. Acalmo-me. Profundamente, durmo.
Abro os olhos. Susto. Minha cama. 7:30h da manhã. Demoro a dormir outra vez.

Flor de Manga

Abre a janela e sente o cheiro de flor de manga entrar pelo quarto. Fecha os olhos, respira bem fundo e sorri. É como voltar no tempo, a árvore no quintal, no quintal da avó, no quintal vizinho, a casa da árvore. As folhas. As folhas espalhada pelo chão, a casca da árvore. O tato. O cheiro. Os gostos. As brincadeiras de rua. Féria de julho! A molecada espalhada pela rua... De dia, de noite... riscando o asfalto com pedra, sujando os pés nos chinelos de dedo... O sol queimando a pele, a noite trazendo os gatos... As calçadas ficavam mais perto. Eram ásperas, acolhedoras, sala de estar dos sonhos vagos. Dos risos fartos, dos corações intactos.

Posto de saúde

05:00h am. “Acorda... acorda... Se agasalha, ta frio lá fora.” “Nossa mãe! Que banco gelado... A pessoa vem aqui doente, senta nesse banco e piora! Rsrsrs”. A dor... Não há posição em que a perna fique e a dor pare... Acho que vou ficar resfriada... Nada de reclamar... É óbvio que tem dor. Mas não há necessidade de se expandir a ela. Ela já se preocupa tanto. Mãe. Palavra pequena. Significado sem igual.
Tem um senhor aqui com enfisema pulmonar. Estava tão frio... A camisa dele tão fina. Fina. Pesada. A risada tão pesada. A voz grave. Ele não parece triste. Cansado, sim. Mas ele sorri. Mãe! Vamos ver o sol nascer lá fora? “Sua perna...”. Rapidinho... O sol ta nascendo cor-de-rosa...

Obs: “Ele era um falso-médico. Mas pra mim ele foi ótimo! Ele podia ter me matado, mas me deu uma injeção e a dor passou...” Riso geral no posto

Domingo

Domingo. Comida de domingo. Família reunida. Reunida entorno da mesa, da pia, da louça. Os braços dados numa corrente, até os ausentes, presentes. No coração de cada um. Tão bom... Abraçar meu avô... Sorrir com as “meninas” na cozinha. Pegar minha “magrela-gorda” no colo. É bom ouvir palavras doces das pessoas, que sentiram sua falta. Surpresas. Cara nova. Cabelo novo. Força nova.
“Que bom que você está aqui... Alguns domingos foram tão quietos sem você. Parece que a casa fica triste...”. Coisa mais bonita que já se ouviu. “Seu rosto está mais bonito, estava muito magro da última vez.” Ai meu Deus! Eu to gorda... “E a vida como está? A faculdade... a vida amorosa...?” Amorosa? Que amorosa?? Rsrs “Não precisa contar tudo não... só por cima mesmo... longe de mim...” (riso geral). Que bom. Não saberia bem o que dizer mesmo... “Tanta” vida amorosa né? Hahahahaha... Ai ai... Adoro...
Mas sabe... Queria tanto estar ali. E estava. Mas faltava. Minha tia falou em silêncio. É bem essa a sensação da falta. A do silêncio. Seu silêncio foi gritante nesse domingo, meu irmão. Mas nossos domingos passados hão de preencher esse vazio. Esse silêncio. Essa falta. E quem sabe no outro domingo vai estar.

Espelho

Gosto do espelho do banheiro da rodoviária de Prudente. Sempre que nele me olho, me vejo diferente da última vez que por ali passei. Sinto como se visse a mesma imagem que os que não me vêem há algum tempo fosse ver. Família. Amigos. Mais “nega”, mais velha. Com certeza mais velha. Fica bem nítido nos olhos. Olhos de: “nem que eu fale, explicaria por tudo que passei nesse tempo em que não estavam aqui”.
Não sou a mesma. E não serei mais essa da próxima vez que por aqui eu passar.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Tocava U2

Sentada numa mesa de bar...Tão longe dali. Roupas curtas demais. Maquiagem exagerada. “Com ou sem você... com ou sem você...”.Ela fuma um cigarro... E se lembra da infância... “Com ou sem você... com ou sem você...”. É o que está tocando. É o que não sai da sua cabeça.
E ela poderia ter voado enquanto era tempo. Poderia ter voado. Mas teve asas curtas demais pro seus sonhos. “Com ou sem você...”. Era só no que pensava. E no bar a música tão conhecida sua... Diferente daquelas que ouvia enquanto trabalhava naquele ambiente sujo. Ela pode viver. Sabe que pode viver... “Com ou sem você...”.
O que sobrava do batom estava no copo de cerveja. E o perfume adocicado de merda a perseguia. Aquele cheiro de merda doce que outros gostavam tanto de fumar. Nunca entendera bem o por quê. Pelo menos disso não se arrependeria um dia. Não disso. Mas do resto.
As sandálias machucavam tanto. Salto alto. Altos demais. Foi o mais alto que pôde chegar. As unhas vermelhas. Vermelho sangue. Sangue. Viu tanto sangue. Nenhum tão vermelho quanto o dele. Agora as unhas... Não gostava daquela cor, mas o gosto dela não importava. De que cor gostava mesmo? Seria azul? Não se lembrava mais.
Suas mãos refletiam seu rosto. Tão calejada... Toda a sua vida. “Com ou sem você, com ou sem você...”. Ela pode viver. Sabe que pode viver. Pode. Talvez um dia voe. Voe de verdade. Como o pássaro que seu pai fazia dela. Era tão pequena, e ele a levantava tão alto... A fazia voar... Era uma criança tão feliz. Voava. “Com ou sem você...” “Eu posso viver. Eu posso... Sei que posso”.
Tarde demais pra tentar disfarçar. Já soluçava. Chorava de saudade. Mas o som estava alto e as pessoas ao lado inconscientes pela merda doce. Não notariam seu soluço. Como foi que chegara até ali? Em que momento da sua vida. Chegou até ali. Estava ali.
Hoje ela é sozinha. Desde então muito sozinha. Dês daquele dia. Ficara sozinha. Roubaram-no dela. Mataram-na com ele. “Com ou sem você. Com ou sem você...” “Eu posso... sei que posso...”.
E quando passarem por ela na rua, não vão reconhecê-la. Ninguém a enxerga. Nem quando trabalha, aí fica mais invisível ainda. Sai de si mesma. Perde-se dentro do próprio corpo. Vê o pássaro. Vê as mãos protetoras que a suspendiam... “Com ou sem você...” “Me perdoe... eu não pude voar...” “... com ou sem você” “... eu não pude...”. Segue sozinha. O perdera para uma bala perdida. Segue sozinha. Não segue. Morre. Toda a noite morre.

sábado, 23 de agosto de 2008

Eu te agradeço, mas por favor...

Chegue um pouco mais perto. Apenas um pouco mais perto. Eu te agradeço, mas, por favor, não me diga que não me conhece. Te agradeço por tudo, mas não me diga que não me conhece. Caminhamos juntos por tanto tempo, sem ao menos nos ver. E ao mesmo tempo não me sinto responsável por nossa sorte. Mas pela manhã vou poder beijar seus lábios e te agradecer por estar sempre ao lado. Do outro lado da linha que nos separa. Não chore. A manhã virá como em um sonho, e você poderá respirar.
Chegue mais perto. Estive sempre por aqui. Zelando por teu coração. Por favor, não diga que não penso em você. Não me olhe com veneno nos olhos. Esse não é você. Retorne a si, e não jogue fora nossa sorte. O sol sairá pela manhã e voltaremos a nos encontrar. E dessa vez não deixará que eu fuja. Não deixarei que você se perca.
Não duvide de mim. Chegue mais perto. Sinta o calor dos meus olhos nos teus. Pensa que fui corajosa? Não. Foi a mais pura sorte. E hoje te agradeço. Mas por favor, não diga que não me conhece. Não terá mais que esquecer. Eu estarei sempre aqui. Eu te agradeço, mas, por favor, não diga que não me conhece. Não diga que é tarde. Eu estarei sempre aqui, do outro lado da linha.

Mímico

Tinha imaginado algo diferente quando saí de casa em busca de um trabalho que me desse de comer e noites bem dormidas. Noites bem dormidas porque com fome não se poderia mesmo dormir. A mala tão murcha naquele canto de quarto de pensão, e as poucas camisas penduradas no armário embutido. Caberia dentro dele, eu todinho e tudo que trazia comigo. Até mesmo meus acanhados sonhos que há muito deixei pra traz. Talvez em alguma das pensões não pagas e de todas expulso.
Mais barata, nessa dividia quarto com um mímico das ruas. Mímico. Recolhia em seus pequenos espetáculos ao ar livre apenas o suficiente para o pão e para a tinta do rosto. Bom que fosse mímico, assim guardava saliva pra me ajudar a engabelar a dona da pensão.
-Semana que vem. Nós pagaremos. Os dois. Conseguimos uma bela entrevista. Vou deixar as ruas e a tinta branca! E ele ...! A senhora vai ver só como vamos.
-Só o que quero ver é a cor do dinheiro que me devem meu rapaz.
-A cor será a mais bonita senhora! Garanto! Cores que lhe trarei com a maior satisfação. Ou a senhora acha que a deixaria na mão?
-Não....é apenas que....
-Ora deixe disso... sabe o quanto damos duro e o quanto a estimamos...
-Sim, sei....e também os estimo...
-Pois bem! Sossegue... logo terá o retorno que merece por sua infinita bondade e compreensão.
E assim levava a vida. Era esperto. Altivo. Tinha ares de príncipe. Sabia como convencer alguém do que quer que fosse. E o fazia sem o menor dos esforços, como se ao jogar a moeda ao ar soubesse sempre qual face lhe dariam. Mas a entrevista nunca chegava. A tinta parecia grudar em seu rosto. Acho que no fundo era o que gostava de fazer. Sentia-se grande. Mais do que quando falava. E olha que ficava bem alto quando falava. Sua postura ereta de pescoço comprido, os olhos pareciam olhar por cima. Impunha. Sem que percebesse, ele se impunha. Como se impõe o cisne aos patos. Comia em sua cama paralela a minha o arroz com sardinha mais fino de todas as refeições. Como se comesse lagosta, ou qualquer coisa que nossos bolsos não pudessem comprar.
Sabia de tudo um pouco, e do nada sabia “um tudo” surpreendente. Até quando não sabia parecia ter conhecimento profundo. Eu, como bom mineiro que sou, aprendi muito apenas escutando e observando aquele perspicaz mímico das ruas. Mas ele aprendeu comigo também, tenho certeza de que ele nunca se esqueceu, enquanto vivo, do que aprendera em matéria de paladar musical com esse mineirinho aqui. Ah.....Não fora por meus velhos e bons discos não teria iniciado aquele romance com a francesinha do café da rua América.
A conhecera num fim de tarde, após seu trabalho. Mal pôs os olhos nela e já estava perdidamente apaixonado. Passou a freqüentar o café todos os dias assiduamente apenas para olhá-la servir as mesas e sorrir para as pessoas. Chegava à pensão perdido, atordoado, com ela perdia todo seu latim. Não havia prosa ou versos que soubesse de cor e salteado que pudesse escapar de sua boca nos momentos em que se encontrava frente à moça. Travava. Simplesmente travava. Suas palavras não passavam de “um suco de laranja, por favor.”.
Numa noite, enquanto me aprontava para dormir, esticando a coberta, aflito se abriu comigo. Surpreendeu-me. E muito. Pois se até eu, calado, sabia como conversar com uma moça que fosse de meu interesse... Justo ele? Não sabia o que dizer. Respondi apenas:
-Seja sincero, ora. Diga o que sente.
-Mas é esse meu problema. Sou ótimo em interpretar, em enrolar as pessoas. Mas agora, quando o que preciso dizer é simplesmente: “Saia comigo. Goste de mim.” Não sei como faço.
-Comece do começo, ora.
E lá foi ele no dia seguinte. Trabalho seguido do suco de laranja no Café. Falou. Mas não foi muito longe com sua sinceridade, a moça não lhe deu muita confiança. Afinal, sinceridade exige certo treino. Enrolou-se todo nas palavras, não sabia levar um só diálogo até o final sem seus meandros.
Aconselhei que parasse para se olhar nu, bem fundo, até o dedão do pé da alma. Ele não sabia bem como. E foi aí que lhe emprestei meus bons discos para que ouvisse em silêncio. E em silêncio se ouvisse também.
Funcionou. Na semana seguinte já andava com a moça de braços dados. E com ela casou-se no ano seguinte. Não tiveram filhos. Ela ficou viúva antes disso. Meu amigo mímico perdera a vida ao tentar defender uma senhora de um ladrão que lhe puxava a bolsa de mão. Dele restou-me apenas a lembrança de um rapaz altivo, falante, que para conhecer a si mesmo precisou primeiro se perder nos olhos de uma moça.

Existe?

Sentiu pela primeira vez que talvez ele não existisse. Pela primeira vez quando olhou as fotos viu nele o desconhecido que realmente ele era. Ao contrário da primeira vez. Não se tratava mais do sorriso doce, não eram os olhos de menino antes encontrados, se alterava como uma massa embriagada. Perdido. Torpe. Áspero. Fugaz, ligeiramente fugaz de si mesmo. Deixava clara a incoerência com a música que saia da sua garganta. Tão lúcida. Clara. Adulta. Ao contrário da imagem que como num dejavu, refletia imaturidade. Deixe. Talvez queira atingir alguém. Atingiu. Como uma flecha no peito da “desamparada menina”. Ou seria mulher? Menina. Se mulher, não acreditaria em bobagens como essa. Quando mulher cada passo avançará mil léguas.
Mas ainda espera sentada na soleira da porta que um dia ele apareça. Aparece nada. Sabe disso. Mas finge que não. Aguarda que na estrada aponte o moço. O moço. Velho moldado pelos buracos e pedras no caminho. Virá finamente vestido. Como não? Alguns remendos e manchas na roupa-alma, mas tudo bem, nada que seu carinho não pudesse ajustar. Chapéu, sapatos empoeirados e a rosa vermelha nas mãos. Ah... A rosa! Ela não poderia faltar! Aquela que aguardava por tantas paradas, curvas e que nunca aparecera. Dela que sentira falta naquela noite fria em que sozinha voltava pra casa, também nas vezes em que não a encontrou esperando por ela nas rodoviárias, foi por ela que chorou quando depois de uma festa recostou a cabeça no travesseiro. Viu-se só. Sem que ele deixasse sua rosa, e na manhã seguinte a encontrasse tingida de vermelho na fronha ao lado. Não. Ele não a encontraria tão fácil. Soubera se esconder muito bem.
Sem que ao menos percebesse, estava se escondendo. Com medo. Nem ela sabia, mas na verdade sentia medo. Medo de que ele não existisse, ou partisse, até mesmo confundisse seu amor em outra porta. Decidida então, abandonou a velha soleira decidiu entrar e organizar as prateleiras da alma, bibelôs, cada partezinha. Decidiu por aguar as plantas, varrer o chão e colocar uma boa música pra tocar. Espera. Silencia. Ouve. Hoje, como sempre, ela espera, mas agora é diferente. Algo de novo há nos seus olhos. São fortes. Tão tênue e aparente... Doce-fina navalha cortante. Os galhos cresceram fortes, as raízes se espalham firmes.
O moço, aquele do sapato empoeirado, se um dia chegar, terá que bater à porta e limpar os pés no capacho. Ele vai olhá-la nos olhos. Mas e ela? Ela não dirá nada. Não com os lábios. Não importa. Ela lera em algum lugar que se ele for quem ela realmente espera não se deixará intimidar pelo seu silêncio. E sentirá como ela sentira um dia falsamente, e depois traduzira para palavras ao encontrar descrito em um livro: “Como se houvesse aberto uma porta e não soubesse como fechá-la”. Não fecharão. Não será mais preciso.